(Artigo atualizado em 29.02.2020. Originalmente publicado em 23.02.2020)

Para acompanhar o impacto do avanço do coronavírus na economia global, principalmente nos países emergentes, é possível fazer uma cesta de FX com as moedas dos países mais afetados diretamente pelo avanço do vírus e suas implicações nos prêmios de risco dos países ao redor do globo, tanto em economias emergentes quanto desenvolvidas.

A cesta atual pode ser composta principalmente por USDKRW, USDZAR, USDHKD, USDSGD, USDCNH/CNY e AUDUSD.

No radar, coloque também o USDJPY e EURUSD pois o impacto do vírus está se espalhando e afetando o Japão e a Europa. Então é possível que com o avanço do tema nos países, o JPY e o EUR venham a sofrer mais. É importante notar que o Iene perdeu gás no primeiro momento com o avanço do CONVID-19 na Ásia e Japão. Porém, conforme o vírus começou a se espalhar globalmente, a moeda  continuou com o seu status de “porto seguro” no sell-off nas bolsas da semana do dia 24 de fevereiro. O Euro também apresentou um price action de upside devido ao atual guidance de política monetária do BCE, que aponta menor disposição para corte de juros e com o fluxo de fuga de capital e desalavancagem com alta do risco-país de moedas com high yield emergentes.

O USD que também tem um status de porto seguro, no primeiro avanço na China mostrou price action de liderança ante FX de Mercados Emergentes e Desenvolvidos, mas perdeu fôlego na última semana devido ao aumento no risco global e o mercado começando a derrubar os rendimentos dos Títulos dos Tesouros dos EUA com a precificação de uma política monetária mais frouxa (dovish).

Nos últimos dias o mercado adiciona uma probabilidade mais 3 cortes (total de 4) na taxa de juros dos EUA. Na sexta-feira, 28 de fevereiro, após o Presidente do Fed, Jerome Powell, lançar uma declaração dizendo que “o Fed utilizará suas ferramentas e atuará de forma adequada para apoiar a economia” dos EUA, o mercado monetário passou a precificar com uma probabilidade maior do que 85% um corte de 50 bps na próxima decisão de política monetária no dia 18 de março. Isso que coloca mais pressão no Fed, portanto, os membros votantes do FOMC estarão em mais evidência nas próximas semanas.

Percentual de precificação implícita das taxas de juros nos OIS dos EUA. (via Bloomberg Terminal)

Percentual de precificação implícita das taxas de juros nos OIS dos EUA. (via Bloomberg Terminal)

Para não ficar preso apenas ao que a moeda traz em termos de price action e preço, é muito importante considerar as expectativas do mercado em relação a atuação dos Bancos Centrais para lidar com a liquidez, volatilidade no mercado de câmbio de cada país e também com as possíveis atuações das autoridades no nível da política monetária: pacotes de Q.E., injeção de liquidez de curtíssimo, médio e longo prazo via bancos até mesmo diretamente às empresas e cidadãos, cortes ou não das taxas de juros estruturais (curto/longo prazo) e taxa de compulsório. Tudo isso pode mudar o sentimento dos participantes e price action (oferta/demanda) pelas moedas.

Com este watchlist de FX, traders terão uma visão de sentimento do mercado dado um aumento da incerteza, alta no risco-países, maior prêmios de risco, menor demanda por ativos de risco como equities e bonds corporativos, impacto do vírus na economia local (oferta/demanda, cadeia de suprimentos, balança comercial), na política monetária, nas atuações dos governos e BCs e, na maioria delas um proxy da demanda por commodities.

Atualmente, em termos de risco, além do Yuan onshore e offshore (CNH/CNY), o AUD, ZAR e KRW estão funcionando como o melhor proxy da China pra entender as expectativas do mercado quanto ao impacto do coronavírus na região.

Watchlist FX por Anderson Alves (atualizado em 29.02.2020)

Watchlist FX por Anderson Alves (atualizado em 29.02.2020)

Como operar Brasil

Se a situação continuar piorando para os EMs (Mercados Emergentes) e começar a afetar os DMs (Mercados Desenvolvidos), isso pode impactar ainda mais o Brasil. Como a possibilidade de trazer mudanças nas expectativas futuras de crescimento e inflação, que pode fazer os participantes do mercado a alterarem a precificação da ETTJ (curva de juros), afetando o cupom cambial, dólar casado, e produtos de FX OTCs que são muito negociados no interbancário brasileiro como NDFs, FRAs, Swaps, Estruturas de Volatilidade, e naturalmente, o USDBRL.

Uma alta demanda por USD devido à hegde, fuga de capital para segurança (“flight to quality”) e de spread de juros (“carry trade”), pode impactar a liquidez e volatilidade no mercado de câmbio local, podendo chamar o Banco Central do Brasil para intervir mais frequentemente com operações de Mercado Aberto (“Open Market”) e com outros instrumentos de controle cambial e política monetária.

Com uma deterioração do cenário base global, da política monetária local, é possível que aumente a pressão política antes das eleições municipais, e isso pode levar a um impacto em equities do Brasil . Atualmente, o Estado brasileiro tem pouco espaço para políticas fiscais.

Uma dica para acompanhar os desenvolvimentos em torno do coronavírus na Ásia e, agora, no mundo todo, é analisar de perto como os mercados operaram no overnight, buscando entender o impacto das novas informações em torno do vírus na cesta cambial que foi citada acima, nas medidas dos governos no âmbito de políticas fiscais, no prêmio de risco, nas possíveis atuações diretas e fortes dos BCs para controlar a liquidez, oferta (até a demanda) e na volatilidade do mercado de crédito e equities.

Com o avanço do vírus em quase todas as regiões do planeta, todas as sessões (Asiática, Europeia, Americana) tiveram liquidez reduzida em todas as classes de ativos, com a grande incerteza em torno do tema, fazendo a volatilidade subir muito forte.

O mercado de FX pode servir como termômetro fornecendo um sentimento simples e direto de como está o financiamento no mercado monetário, que é uma das principais bases de financiamento das economias e dos participantes do sistema financeiro.

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